Entrevista a André Martins

André Martins é um dos jovens e competentes técnicos do basquetebol português. Aos 36 anos de idade já foi o responsável principal por uma equipa da LCB, por duas equipas da Proliga e vai no segundo ano como treinador da Selecção Nacional de Sub20. A exigência que coloca em cada treino é sempre elevada e os reflexos do seu trabalho acabam por se traduzir na forma como as suas equipas jogam e pelo sucesso que vão alcançando nas mais variadas formas.

Em entrevista ao BasketPT.com, André Martins fala-nos da qualidade dos jovens que tem treinado e daquio que poderão fazer num futuro a médio prazo. Isto, claro, se continuarem a trabalhar e a ter desafios à altura da sua ambição, talento e capacidade de trabalho.

Eis André Martins em mais uma entrevista BasketPT.

 

 

Já há dois anos que estás a trabalhar no CAR Jamor. Que balanço fazes de treinar aqueles que são considerados alguns dos atletas mais promissores do escalão de Sub18?
Falando deste ano, que é aquele em que passei a ser o principal responsável pelo CAR Jamor, o balanço que faço é um balanço positivo, embora saiba que há sempre coisas a melhorar e a experiência que tivemos este ano, concerteza que nos irá fazer melhorar no próximo. De qualquer das maneiras o balanço é positivo.

A experiência de defrontar equipas da Proliga ajudou à evolução destes jovens?
O facto de termos competido na Proliga foi um grande factor motivador, e foi bastante enriquecedor para que aqueles jovens daquela idade tivessem uma oposição diferente e tivessem de se superar diariamente para que conseguissem competir naquele nível. Isso foi bastante positivo para os jogadores e também para os treinadores. Já agora gostaria de agradecer a todos os clubes da Proliga e aos seus treinadores a forma séria e concentrada como encararam os jogos com o CAR Jamor.

Nestes jogos contra as equipas do Campeonato da Proliga sentiste que os atletas do CAR Jamor conseguiam jogar de igual para igual com os seus adversários?
Mais importante do que o jogar de igual para igual, é que eles estejam a preparar-se para jogar naquele nível. E quanto mais cedo defrontarem aquele tipo de oposição, mais cedo estarão preparados para aquele tipo de jogo, para aquela intensidade e para o tipo de exigência mental e física que um jogo da Proliga tem. O facto de aos 17 anos estarem a competir contra aquelas equipas vai ser uma mais valia que rapidamente lhes vai permitir jogar naquela competição.

Ficaste surpreendido pela positiva ou pela negativa com a qualidade que tens encontrado nestes jogadores?
Já conhecia os jogadores! É um grupo que tem vários atletas com potencial, e que vendo isto numa perspectiva de futuro, há ali um conjunto de 3 ou 4 jogadores que a médio prazo poderão ter condições para chegar a uma Selecção principal, até porque esse é o principal objectivo.

Algumas pessoas confudem o Centro de Treino com a Selecção Nacional. Aquilo que se faz no Centro de Treino é preparar a base da Selecção, ou preparar os jogadores para o futuro?
Na minha opinião, e na forma como eu vejo o CAR Jamor, deve ser um misto das duas coisas, e são dois objectivos que estão em igualdade um com o outro. Acho que devemos preparar a base de uma Selecção competitiva, mas também tem de servir para preparar jogadores que nesta altura não estejam preparados para integrar uma Selecção Nacional mas que se perspective que tenham uma evolução futura que lhes permita atingir níveis mais altos. Por exemplo, para jogadores que vêm de regiões mais desfavorecidas, onde a competição não é tão grande, os Centros de Treino permitem que estes jogadores cheguem ao final do ano ao nível dos melhores jogadores.
Posso dar-te o exemplo de um jogador que ninguém conhecia e que está no CAR Jamor, que é o João Ribeiro que vem de Torres Novas e que nesta altura é considerado por muitos como um dos jogadores com mais capacidade e mais potencial da sua Geração.

No ano passado foi a tua estreia em Europeus. Sentes que aquela derrota no jogo inaugural ditou o resto de uma competição em que uma derrota pode comprometer todos os objectivos?
É preciso não esquecer que esse jogo que perdemos foi com a Bulgária que foi às Meias-finais do Campeonato, e era um dos candidatos à subida de Divisão. E, neste momento, o nosso nível não é de Divisão A - é de Divisão B, onde procuramos estar, dependendo das Gerações, nos 8 primeiros ou nos 12 primeiros lugares. Portanto, considero que foi um campeonato extremamente positivo, em que nos 8 jogos que fizemos disputámos 7 deles até ao último minuto, inclusivé com a Suécia que foi à Final da competição. Apenas num jogo fomos claramente derrotados, porque fomos abaixo animicamente. Mas discutimos todos os jogos!
E temos de ter consciência de uma coisa: é que num Campeonato da Europa de Sub20, 80% dos jogadores das outras Selecções jogam nas competições Seniores dos seus países, e nós temos 10% dos nossos jogadores a jogar nas nossas competições Seniores, porque os outros jogam nos Juniores. E não tenham dúvidas que isso é que marca a diferença, porque eles estão habituados a competir em superação e muitas vezes os nossos jogadores não estão. Não estão habituados a competir diariamente, a terem que se superar diariamente. A maioria destes jogadores são dos grandes clubes, e se calhar em 50 jogos durante o ano só fazem 5 competitivos. Estão habituados à vitória e não sabem lidar com a derrota, o que não os obriga a trabalhar mais, pois não têm dificuldades no dia-a-dia.
Esta é a principal grande diferença. E além disso, as selecções candidatas à subida têm sempre jogadores que já são profissionais de basquetebol.

Nesse Verão disseste que aquela Geração de '90 tinha vários jogadores com capacidade para jogar na LPB. Os desempenhos de Tomás Barroso, Diogo Correia, João Soares, José Barbosa, Pedro Catarino, Tiago Raimundo e do João Guerreiro surpreenderam-te?
Não, até porque tal como referiste, antes do Campeonato da Europa do ano passado disse numa entrevista que qualquer um dos 12 jogadores convocados tinham condições para jogar na nossa Liga e na Proliga. Por isso, para mim não foi surpresa nenhuma. Eles estão lá, e jogam porque têm qualidade e não porque são jovens.

E nesta Geração de '91 e '92, há jogadores com capacidade para conquistarem lugares de destaque nas principais competições portuguesas?
Esta é uma Geração que em termos de históricos de Campeonatos da Europa tem um saldo bastante negativo. Em 16 jogos venceram apenas 1. E é considerada por muitos como uma Geração fraca. Mas neste momento, essa não é a minha opinião.
Até podemos não atingir uma boa classificação, mas neste conjunto de jogadores que está aqui, há um grupo de 5 ou 6 atletas que podem perfeitamente jogar na Liga principal ou até chegar à Selecção principal. Há jogadores com talento e capacidade para isso!
Agora, o grande problema desta Geração é a pouca maturidade competitiva: muitos deles ainda jogam um jogo de Juniores e não um jogo de Seniores. E o Campeonato da Europa de Sub20 é um campeonato de nível de Seniroes e não do nível de Juniores.

Muitos defendem que a passagem de Juniores para Seniores é determinante para se saber o futuro de um jogador. Vês, nestes jovens, a capacidade de trabalho necessária para chegar mais alto?
Acho é que estes jovens com talento precisam de encontrar um espaço competitivo que os obrigue a treinar mais e onde joguem com dificuldades, pois é isso que irá fazer com que eles cresçam. Se não encontrarem esse espaço nesta idade vão andar para trás! Um jogador que chegue aos 20 anos e não tenha uma competição onde tenha que se superar vai andar para trás...
Na minha opinião, a principal dificuldade tem sido que estes jovens com talento chegam a estas idades, precisam de ir para um nível de exigência mais alto, e acontece precisamente o contrário! Muitas vezes vão para equipas onde treinam menos, e onde a competição não é mais forte.

O Dejan Bodiroga, como director das Selecções da Sérvia, diz que as competições de selecções jovens devem servir para preparar os jogadores para a Selecção principal. Concordas com esta visão, ou sentes que mesmo nestes escalões a avaliação do trabalho é feita em função dos resultados?
Penso que é muito redutor avaliar o trabalho de uma Selecção pelos resultados e pela classificação final num Europeu. Por exemplo, no ano passado ficámos no 7º lugar, e cumprimos o objectivo de ficar nos 8 primeiros. Mas mesmo que não fosse conseguido, o facto de termos discutido todos os jogos com todas as Selecções, o facto de passados dois meses 80% dos jogadores desse grupo estarem a jogar na nossa Liga tem de ser considerado em qualquer avaliação que se faça do trabalho daquela Selecção.
Avaliarmos os Campeonatos da Europa apenas pelos resultados é um erro que ainda cometemos, e que na minha opinião, não se deve cometer pois é muito redutor. Obviamente que os resultados são importantes e devem ser avaliados, mas não são tudo! E as pessoas que têm a função de avaliar é que devem fazer uma análise mais profunda sobre o desempenho e sobre o trabalho realizado.

A falta de dinheiro existente na grande maioria dos desportos nacionais pode levar a que haja poucas perspectivas de construção de uma carreira profissional. Pensas que há muitos jovens a utilizarem isso como uma desculpa para não trabalharem de forma mais empenhada?
Quando um jogador faz a transição nesta idade tem que ter muito claro dentro de si se quer ou não quer fazer uma carreira profissional. Se pensa que não tem capacidade profissional deve optar por outra coisa.
Mas a grande vantagem em Portugal é que pode optar por seguir essa carreira de jogador, e ao mesmo tempo pode ir completando uma carreira académica. E pode ganhar algum dinheiro durante 8, 9 ou 10 anos jogando basket a um nível mais alto e ao mesmo tempo vai-se preparando para ter uma formação académica superior para que um dia, quando não puder mais jogar basket, tenha a capacidade para seguir uma profissão diferente.
É isso que procuro transmitir e passar para os jogadores: é possível conciliar as duas coisas! É difícil, mas há vários exemplos disso e eles não devem desistir mas devem acreditar!