Entrevista a Augusto Sobrinho

Formado no FC Porto, onde nunca conseguiu “explodir” como atleta sénior, Augusto Sobrinho, um nome (re)conhecido do basquetebol nacional, mudou-se de malas e bagagens para Guimarães depois de uma temporada de sucesso ao serviço do Lusitânia, clube pelo qual conquistou a Proliga. Ao título de Campeão Nacional do segundo escalão, o base/extremo, de 25 anos, juntou-lhe ainda o de MVP da final, onde registou uma média de 21.2 pontos durante os cinco jogos.

Actualmente, é o melhor português do V. Guimarães (10.1 pontos por jogo), suplantado apenas pelo trio de norte-americanos. Na Cidade Berço procura afirmar-se definitivamente no escalão máximo do basquetebol em Portugal, mas não esconde que tem a ambição de um dia voltar ao clube do seu coração.

Eis Augusto Sobrinho em discurso directo.

Depois de um período difícil no FC Porto Ferpinta, consideras que a mudança para o Lusitânia e, consequentemente, para a Proliga, foi um passo importante na tua carreira?
No FC Porto era um jogador jovem, da casa e com pouca experiência competitiva. Sabia que, embora com bastante talento e dedicação, os americanos e os portugueses mais velhos estariam sempre à minha frente. Como sou uma pessoa e um jogador ambicioso, não quis ficar mais naquela situação. Quis sair por uns anos para me valorizar e crescer como jogador e pessoa. Foi uma opção que tomei visando a evolução como jogador profissional de basquetebol, porque a nível de equipa e colectivo, passei bons momentos no FC Porto, onde ganhei 1 Campeonato Nacional pela Liga, 3 Taças de Portugal, 2 Taças da Liga, 1 Supertaça, 1 Torneio dos Campeões, 1 Campeonato Nacional pela equipa B (CNB-1) e 1 Campeonato Nacional de Juniores A. Entretanto tive a proposta do Lusitânia, que na altura estava na Proliga e aceitei, pois senti que o projecto era ambicioso e onde poderia evoluir. Penso que foi uma decisão muito importante na minha vida e na minha carreira e da qual não me arrependo nada.

Foste decisivo no título conquistado pelo Lusitânia e chegaste mesmo a ser considerado o MVP da Final da Proliga em 2009/10. Era difícil ter pedido melhor?
Não era possível ter corrido melhor! Graças a todas as pessoas que acreditaram e lutaram para que o Lusitânia continuasse de pé e voltasse a estar no topo da competição portuguesa, desde jogadores, treinadores e dirigentes, penso que o resultado final foi um prémio depois de um ano com bastantes dificuldades. Nao podia ter sido melhor. Subimos à Liga e fomos Campeões Nacionais. Foi um sentimento de felicidade e orgulho incríveis, porque, afinal, todo o trabalho e dedicação valeram a pena. O meu título individual de MVP, consegui-o com muito trabalho e dedicação, mas acima de tudo, devido aos meus excelentes colegas de equipa, porque sem eles, nunca teria conseguido alcançá-lo.

O que te levou a optar pelo Vitória SC, sendo que podias estar igualmente a disputar a Liga Portuguesa de Basquetebol, mas com a camisola do Lusitânia?
Tal como referi anteriormente, sou uma pessoa e um jogador ambicioso, e todas as minhas opções de vida e de trabalho vão nesse sentido. Quando tive a proposta do V. Guimaraes fiquei bastante feliz, pois sabia que era uma equipa mais ambiciosa e que queria estar no topo da classificação e a lutar por todas as competições, enquanto o Lusitânia lutaria essencialmente pela manutenção.

O Vitória Guimarães tem-nos habituado ao melhor e ao pior. O que falta à equipa para ser mais regular e “morder os calcanhares” a FC Porto Ferpinta e SL Benfica?
O FC Porto e o Benfica são dois grandes cubes e duas grandes equipas com excelentes jogadores. A diferença de orçamentos nem sempre fala mais alto e o mais importante é a atitude e a coesão de equipa, algo que se ganha com o tempo. Um plantel que se conhece bem e que joga junto há muito tempo, acaba por ser mais forte. Nós somos uma equipa recente. Por vezes "encaixamos" na perfeição e discutimos os jogos com qualquer equipa de topo, por outras nem tanto e temos ainda alguns deslizes. A equipa ainda se está a conhecer e a aprender onde temos os nossos pontos fortes e fracos. Mas penso que com o tempo e se a equipa se mantiver junta nos próximos anos, poderá lutar pelo título.

Com o pódio a uma distância já considerável, o grande objectivo do Vitória na fase regular passa por terminar no 4º lugar?
Toda esta equipa do V. Guimarães, bem como a estrutura à sua volta, é muito ambiciosa. Queremos a melhor classificação possível na fase regular e vamos lutar por chegar aos «Play-off» nos quatro primeiros lugares.

Tendo em consideração a diferença de orçamentos e até de argumentos, é impossível para as outras equipas lutarem pelo título com FC Porto Ferpinta e Benfica?
Nada é impossível, sobretudo no basquetebol. Como já tive oportunidade de dizer, os orçamentos são importantes, mas só isso não chega. Já ficou provado que FC Porto e Benfica podem perder frente a equipas com orçamentos inferiores. Cada equipa tem os seus próprios argumentos.

Qual é a tua opinião sobre a crescente naturalização de jogadores estrangeiros para que estes possam representar a Selecção Nacional?
Não concordo, pois sempre que há uma naturalização de um jogador e a consequente chamada à Selecção Nacional, é menos uma vaga/oportunidade para um jogador português. É quase um “atestado de incompetência” à Formação que é feita em Portugal, pois parece que é preciso ir “buscar fora” para competir internacionalmente.

Que balanço fazes da criação da Escola de FreeStyle?
Os jogadores mais jovens têm de perceber que FreeStyle é diferente de Basquetebol e vice-versa. É bom que já existam escolas com esse tipo de iniciativas, permitindo aos jovens aliar o desporto ao divertimento. O desporto é muito importante, seja de competição ou de lazer.

Sentes que és um dos atletas mais visados pelo público das equipas adversárias? Tanto pela positiva, como pela negativa?
Costuma-se dizer que, bem ou mal, o importante é que falem de nós. Aprendi com o tempo que, em Portugal, quanto pior falam de ti, mais te desejam na sua equipa (risos). Quando jogava no FC Porto, era vaiado nos Açores e em Guimarães, situação que se alterou quando representei o Lusitânia e agora que estou no Vitória. É um lado curioso do desporto.

Para as pessoas menos familiarizadas, queres explicar em que consistem as tuas viagens aos EUA durante o Verão?
Em 2008 e 2009 fui efectivamente aos EUA, mais especificamente a Boston, onde frequentei um Campus cujo principal objectivo é melhorar os índices físicos, mentais, técnicos e tácticos. São eventos onde estão muitos agentes e isso permite-me poder ganhar maior visibilidade lá fora. Mas, acima de tudo, o mais importante é o meu enriquecimento pessoal e basquetebolístico.

Estás a chegar a um ponto decisivo na carreira de um jogador sénior. Quais os próximos passos? Afirmação na Liga Portuguesa de Basquetebol ou uma aventura no estrangeiro?
Sim, sem dúvida. Um dos meus objectivos foi cumprido, pois já não sou a “eterna promessa” do FC Porto. Estou feliz no V. Guimarães, mas não escondo que gostaria experimentar um campeonato diferente e chegar à Selecção Nacional. Confesso ainda que um dia pretendo voltar ao FC Porto, o clube do meu coração e que me fez crescer como homem e jogador.