Entrevista a Fernando Sousa
O capitão da Académica é um verdadeiro exemplo a seguir! Não só pelo que faz dentro do campo de basquetebol, mas pela forma como está no desporto, pela fidelidade mostrada para com o seu clube de sempre, pelo trajecto profissional que tem conseguido fora dos campos e que vai conciliando com a prática de basquetebol ao mais alto nível no nosso país.
Com uma ligação à Briosa que começou quando tinha 7 anos de idade, Fernando Sousa é internacional pela principal Selecção Nacional, tem sido um dos jogadores portugueses em maior destaque nas últimas edições da Liga Portuguesa de Basquetebol, sendo dos poucos que consegue acumular números semelhantes aos dos atletas norte-americanos. Enquanto isso, fora de campo exerce a profissão de enfermeiro e até já foi Presidente da Secção de Basquetebol da Académica de Coimbra.
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Hoje em dia não é comum encontrar um jogador tão fiel a um Clube. Esta paixão pela Briosa vem desde cedo?
Sim, comecei a jogar basquetebol na Académica com 7 anos e desde essa data a minha ligação à Académica tem sido contínua. Esta paixão começou com um simples convite de um amigo de infância que me convenceu a deixar a natação e experimentar um desporto com o qual não tinha qualquer ligação. Ao longo dos últimos 22 essa ligação tem se mantido, fielmente.
Acreditas que a Académica será o único Clube da tua carreira?
Acredito que a Académica será o único clube da minha carreira, mas não posso garantir isso a 100% porque muitas vezes não é possível conciliar os vários projectos em que estamos inseridos a nível profissional e desportivo.
Quais as chaves do sucesso da Académica Coimbra para ter tido uma temporada tão bem sucedida como a deste ano?
A Académica subiu à Liga Portuguesa de Basquetebol na época 2008/09, e nos últimos 3 anos considero que todas as temporadas têm sido de muitos sucessos, atingimos por duas vezes a meia-final e estivemos quase sempre nos momentos mais altos das épocas desportivas. Esta época foi sem dúvida o pico dos nossos resultados desportivos até à data, mas a forma de trabalhar tem sido a mesma ao longo dos últimos anos.
Penso que a principal razão para o nosso sucesso é a relação dentro do grupo entre todos os seus elementos, mais do que as horas de treino, as tácticas escolhidas, o número de lançamentos realizados, etc., o mais importante é a forma como cada jogador entende o seu papel na equipa e como ajuda a equipa a melhorar.
Todos os elementos nesta equipa têm a mesma importância para o sucesso da equipa, não é só o jogador que marca mais pontos ou o que ganha mais ressaltos, os jogadores com menos minutos em campo foram o grande suporte desta equipa a nível de grupo, pois deram mais que ninguém todo o seu contributo para a equipa sem o reconhecimento que merecem ter, abdicaram de objectivos individuais em prol da equipa.
Há quem diga que não és um dos jogadores mais talentosos na tua posição. Mas a verdade é que tens conseguido estabelecer-te como um dos melhores e mais competentes extremos em Portugal. És da opinião que a capacidade de trabalho e o esforço superam aquilo a que muitos chamam 'talento'?
Acho que é tudo importante para se ser um bom jogador. É preciso talento e capacidade de trabalho. Nunca ninguém vai ser um grande jogador sem talento e sem capacidade de trabalho. Penso que não podemos confundir talento, com capacidade física e agilidade. Existem inúmeros jogadores no nosso basquetebol que são grandes talentos a perceber o jogo, o que os torna grandes jogadores. No meu caso, penso que tens razão, não sou dos jogadores mais talentosos na minha posição, mas também não sou dos jogadores que mais trabalha, pois pelas opções que tomei a nível profissional não consigo dedicar o tempo que gostaria ao treino. No entanto, apesar de todas estas condicionantes sei que a disciplina no trabalho e a vontade de vencer são dois aspectos que tenho bem interiorizados na minha vida o que me torna um jogador competitivo.
Tiveste mais uma grande época. Regressar à Selecção é um objectivo?
Ser chamado à selecção é sem dúvida a forma mais gratificante de reconhecer o trabalho de um atleta, para mim foi um dos momentos mais importantes da minha carreira desportiva e até da minha vida. Neste momento, conciliar o meu trabalho e vários projectos profissionais com uma eventual convocatória para a Selecção não seria uma tarefa nada fácil. O ideal seria ter uma Liga de Basquetebol totalmente profissional, mas com este contexto económico é impossível “pedir” a alguns jogadores para abdicarem dos seus empregos e carreiras estáveis para viver apenas dos rendimentos do basquetebol.
Como foi a experiência de ter sido jogador e director em simultâneo?
A minha experiência como jogador e director, principalmente enquanto presidente da secção de basquetebol, não foi uma tarefa nada fácil, visto que estava envolvido em dois grupos de trabalho com tarefas muito distintas, e em determinados períodos o tempo dispendido era muito e a saturação física e psicológica não era fácil de gerir. No geral, não aconselho a acumular estas tarefas, no entanto, nesse ano foi muito importante para a secção de basquetebol da A.A.C. eu ter pertencido à direcção e todos os elementos da direcção foram impecáveis no trabalho que realizaram.
Depois de alguns anos na Proliga, a Académica está a estabelecer-se como uma das equipas mais fortes da LPB. Consideras que estamos na presença de um excelente exemplo de modelo de crescimento sustentado?
Sem dúvida que o trabalho da Académica tem sido de sucesso nos últimos anos. Tivemos um percurso difícil na Proliga e felizmente, a nossa melhor época coincidiu com a extinção da Liga Profissional e nos permitiu ascender à LPB, visto que nenhuma secção da Associação Académica de Coimbra pode ter um estatuto profissional. Nos últimos 3 anos temos demonstrado uma grande competitividade, e o modelo de crescimento que utilizamos na nossa secção tem sido sustentado, nunca entrámos em loucuras orçamentais e temos sempre os pés bem assentes na terra. Espero sinceramente que as empresas, as pessoas individuais, a Câmara Municipal de Coimbra e outras instituições continuem a acreditar neste projecto, visto que os resultados alcançados ano após ano demonstram que todos os sucessos obtidos até ao momento não são obra do acaso, são a consequência de um trabalho sério e conquistado com muito suor por todos os elementos desta secção e pelos seus apoiantes.
No início da época foram públicos os problemas directivos na Académica. Acreditas que tudo está resolvido e que daqui para a frente o teu Clube continuará a crescer?
Os problemas directivos de inicio de época ficaram resolvidos com a criação de uma comissão administrativa, com uma participação activa da Direcção Geral da A.A.C. Em breve, existirá novo período de eleições, para mais um ano desportivo, e espero que exista uma candidatura competente e trabalhadora que dará uma continuidade a este excelente projecto.
És um exemplo de que é possível conciliar estudos com basket e ter sucesso em ambas. Enquanto crescias foi complicado ter de abdicar de algumas coisas para conseguir chegar aos teus objectivos?
Na minha opinião a formação académica é muito importante para obter uma estabilidade para o futuro da nossa vida, pelo que sempre tentei conciliar as duas realidades sem prejudicar os estudos e tentando atingir o nível mais elevado possível no basquetebol. A verdade é que para todos nós o dia só tem 24h e a semana, 7 dias: quando tentamos dedicar-nos o máximo a vários projectos ficamos sem tempo para realizar outras tarefas lúdicas. São opções que acabam por ser mais fáceis quando estamos motivados e temos familiares e amigos que nos apoiam nestas decisões. No final, embora tenhamos abdicado de algumas coisas temos muitas recompensas pelas opções que tomámos.
Sentes que, pelo teu trajecto, pelo que tens mostrado nos últimos anos e pelo teu perfil és uma referência do basquetebol em Coimbra para os atletas mais novos?
Já pratico esta modalidade há 22 anos, e sempre o fiz na Académica, principalmente por este motivo acaba por existir uma referência e uma identificação pelos jogadores da formação da A.A.C. com o meu percurso de jogador, o que me deixa muito feliz. Neste momento, em Coimbra, a Académica é a equipa mais representativa e reconhecida a nível do Basquetebol o que leva a que os seus jogadores passem a ser referências para alguns dos atletas mais jovens, no entanto considero que existem outros jogadores que como eu tenham este importante papel para a Formação do Basquetebol em Coimbra.


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