Entrevista a João Manuel
Estava prestes a iniciar-se a temporada 2009-10 quando João Manuel teve uma decisão surpreendente mas que revelava alguns dos problemas que se viviam e ainda vivem no basquetebol nacional. Aos 30 anos de idade, o internacional português abandonava assim uma carreira com vários sucessos e na qual representou vários clubes - Casino Ginásio, CAB Madeira, CA Queluz, SC Lusitânia e SL Benfica. Foi, aliás, ao serviço dos encarnados que João Manuel apareceu no basquetebol, fazendo ali o seu processo de formação até que chegou à equipa sénior.
Numa fase bastante complicada da secção de basquetebol do SL Benfica, a aposta numa jovem geração de jogadores ajudou o clube encarnado a manter-se vivo no panorama do basket português. Nesse lote de jovens jogadores apareciam nomes como os de Hugo Ribeiro, Miguel Lisboa, Francisco Jordão e, claro está, João Manuel. O base-extremo começou a dar nas vistas com o seu estilo de jogo imprevisível, criativo, com grande capacidade para desequilibrar ofensivamente e com uma vontade e entrega ao jogo notável.
Dois anos depois do seu abandono, João Manuel regressa ao basquetebol. O BasketPT.com aproveita este regresso para entrevistar o base-extremo internacional português.
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Em 2009 decidiste sair do basquetebol. Passados dois anos sentes que, na altura, tomaste a melhor decisão?
Sinto que tomei a decisão correcta. Apesar de ter sido dificil tomá-la, no momento não me sentia realizado por um conjunto de circunstâncias.
Desde que deixaste de jogar, tens acompanhado o basquetebol nacional? Se sim, qual a tua opinião sobre o estado actual?
Desliguei-me totalmente, mas pelas conversas que mantenho com amigos sinto que o nível geral do nosso basquetebol está mais baixo, continuando uma tendência que já se verifica há alguns anos.
Passaste por vários clubes e conheces a sua realidade. Na tua opinião, ter uma liga verdadeiramente profissional (organização interna e externa, financiamento, condições trabalho, promoção do espectáculo) é impossível nos próximos tempos?
A extinção da LCB foi, em minha opinião, um erro grave. Agiu-se a pensar no imediato e os desafios que se colocaram então, são exactamente os mesmos que se colocam agora e entretanto perdemos uma estrutura fundamental para o desenvolvimento da nossa modalidade.
Respondendo a pergunta, acho possivel voltarmos a ter uma liga profissional, no entanto, é mais urgente formar jogadores com maior qualidade e quantidade para termos um campeonato mais competitivo, atraente e sobretudo rentável.
Jogaste vários anos na LCB, numa altura em que quase todas as equipas tinham, pelo menos, 5 estrangeiros. Neste momento, as equipas da LPB podem ter 4 desses jogadores. Qual a tua opinião sobre o número de jogadores estrangeiros a usar por equipa?
Acredito que o número de estrangeiros é irrelevante. Importa saber a qualidade desses jogadores e proteger a utilização do jogador português. Eu e os jogadores da minha geração e anteriores, tivemos oportunidade de treinar/jogar com grandes jogadores o que nos premitiu evoluir e aprender. Um jogador actualmente com 17/18 anos não tem essa possibilidade. Precisamos de jogadores (portugueses ou estrangeiros) que sejam realmente mais valias para o clube que representam e para com quem eles trabalham diariamente e enfrentam semanalmente.
Quando o basket no Benfica passou tempos complicados, decidiram apostar na tua geração e nem se deram nada mal com essa escolha. Sentes que, em Portugal, devíamos dar maior atenção aos jovens jogadores que vamos formando?
Antes de responder à pergunta e agarrando na introdução da mesma, gostaria de partilhar o enorme orgulho que sinto por pertencer ao grupo de pessoas que com muito sacrifício e amor ao SLB e em particular à secção do basquetebol, permitiu que hoje o Benfica tenha basquetebol.
Creio que a pergunta vai de encontro ao que disse anteriormente. Há em Portugal, como já foi demonstrado inúmeras vezes, treinadores com muita qualidade. No ultimo Campeonato da Europa, não vi nenhuma selecção mais bem preparada tacticamente e fisicamente que a nossa. Não vi grandes diferenças a nivel tecnico. É, de facto, notória a diferença de ritmo e experiência que só se ganha jogando regularmente a este nivel.
Dar atenção à competição, criar um nivel alto de competitividade é necessariamente dar atenção aos jogadores que formamos.
Que importância teve o Prof. Mário Gomes na tua evolução e adaptação ao basquetebol profissional?
É lugar comum dizer-se que todos os treinadores foram importantes na carreira de um jogador. Eu não fujo à regra, aprendi com todos e sou o jogador que sou hoje porque me cruzei com cada um deles. Para além de todo o conhecimento que tem e o desejo constante de se actualizar e aperfeiçoar, o Prof. Mário Gomes é um modelo para mim. Pessoa íntegra e de conviccções fortes, defende-as à morte e quem está com ele. Mostrou-me o caminho do sucesso nem sempre com êxito.
Quando saíste do SLB falou-se de uma possível mudança para o estrangeiro. Porque decidiste ficar? Alguma vez te arrependes dessa decisão?
Existiram várias hipoteses que não se concretizaram. Gostava de ter tido uma experiência fora do nosso país, mas por uma ou outra razão não aconteceu. Não posso falar em arrependimento.
Quando vês jogos internacionais, sentes que precisamos de ter mais jogadores para a posição 2 que tenham características parecidas às tuas: criatividade, explosividade, capacidade para desequilibrar em drible e não se refugiar apenas no lançamento exterior?
Precisamos de jogadores de qualidade em todas as posições e que saibam interpretar todos os aspectos do jogo. No último Campeonato da Europa, o António Tavares fez um trabalho extraordinário nesse capítulo: é um jogador que admiro. Não conheço as novas gerações de jogadores mas acredito que vamos encontrar um "novo" António Tavares.
Disputaste um Europeu de Sub16 contra alguns jogadores do Top do basquetebol europeu (Turkoglu, Tunçeri, Okur, Vujcic, Barac). Pensas que essa nossa selecção tinha capacidade para ser melhor aproveitada a nível sénior?
A nossa selecção fez, na altura, um excelente Campeonato da Europa. Acabámos em 9º lugar igualados com o 5º (diferença de pontos). A equipa tinha muita qualidade e cada um de nós argumentos para jogar na nossa liga. Uns por opção outros por falta de oportunidades não atingiram o nivel que o seu potencial permitia.
Este ano voltas ao basquetebol pelas portas do Algés. Neste teu regresso, foi a saudade pelo jogo a falar mais alto?
Muita saudade. Ultrapassado o desencanto que levou ao meu abandono, tenho saudades dos pequenos pormenores que fazem este desporto especial. É muito bom recuperar sensações.


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