Entrevista a Paulo Marques
Paulo Marques é um dos jovens e promissores árbitros portugueses, e que recentemente chegou a árbitro internacional. Neste mês de Julho está a fazer a sua estreia em competições europeias de Selecções, ajuízando o Campeonato da Europa de Sub20 Femininos - Divisão B na Macedónia. Em Portugal tem vindo a assumir-se como um dos árbitros em melhor plano.
Antes de chegar a árbitro, Paulo Marques foi ainda jogador e treinador de basquetebol e, talvez por isso mesmo, tenha maior facilidade em perceber os pontos de vista de todos os intervenientes no jogo de basquetebol. A sua postura enquanto juíz merece destaque, e não se coíbe de afirmar que aprende com os melhores exemplos da arbitragem nacional, dando realce aos ensinamentos recebidos de Tozé Coelho, Fernando Rocha ou Luís Lopes.
Na primeira entrevista do BasketPT.com a um árbitro, eis Paulo Marques em discurso directo!
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Ao contrário de alguns árbitros, o Paulo tinha alguma qualidade como jogador. Foi difícil decidir trocar o papel de jogador pelo de árbitro?
Não foi fácil porque competir é o maior prazer que se pode ter no Basquetebol. E eu ainda marcava uns pontinhos... Foi uma decisão dificil mas ponderada e que perante os condicionalismos da minha actividade profissional e o que podia obter com o Basket fez sentido. O facto de já arbitrar jogos desde os meus 16 ou 17 anos fez com que sentisse que podia continuar ligado à modalidade e continuar a ter prazer. Além disso, várias pessoas ligadas à arbitragem foram-me dizendo que tinha boas caracteristicas para poder atingir patamares elevados e que tinha que ser agora, tinha eu 25 anos.
Acredita que se tivesse continuado como jogador poderia atingir o nível que já conseguiu como árbitro?
Realisticamente não. Em miúdo tinha o sonho de representar Portugal como jogador mas tal não foi possível. Cheguei a ter a oportunidade de jogar na Proliga mas mais do que isso seria dificil... Talvez pudesse ainda chegar à Liga mas nunca seria um jogador de topo embora muitos jogadores que estão agora no auge jogaram comigo ou foram meus adversários e sempre me bati com eles.
Quando passou de jogador a árbitro, sentiu alguma dificuldade em apitar jogadores com quem e contra quem disputou inúmeros jogos?
Não senti dificuldade, pelo contrário. A amizade e o conhecimento que tinha com muitos jogadores tornou até mais fácil a comunicação porque “falamos” a mesma linguagem. Também nunca fui um jogador conflituoso e por isso sempre houve um respeito pela minha posição de árbitro mesmo por aqueles que me conheciam melhor. Tentei também desde sempre mostrar que agora era um papel diferente na minha carreira e que não teria qualquer tipo de diferenciação entre aqueles que conhecia e os que não conhecia. A honestidade e justiça são os grande principios que um árbitro deve ter.
Relativamente aos jogos de escalões de formação inicial: na sua opinião pensa que um árbitro deve ser exigente nos aspectos técnicos ou 'fechar os olhos' a algumas infrações?
'Fechar os olhos' não digo porque é importante os mais jovens conhecerem desde cedo o que é uma violação ou uma falta. Penso é que devemos tentar ao máximo que os jovens compreendam o porquê de termos apitado. Devemos ter uma atitude pedagógica mas sempre com exigência porque senão estariamos a prejudicar os mais evoluidos tecnicamente.
Por vezes diz-se que quando um jogador faz uma coisa diferente, e um árbitro não conhece tende a considerar infração às regras, nomeadamente ao nível da regra dos apoios. Sente que acompanhar a evolução do jogo a nível técnico é fundamental para o sucesso dum árbitro?
Sem dúvida. Por exemplo, existem algumas diferenças ao nível dos movimentos entre o Feminino e o Masculino. Se não estiveres a par do que os ou as jogadoras costumam fazer vamos estar a penalizar erradamente. Para isso é fundamental ver jogos, especialmente ao nível de competições de topo seja de clubes ou de selecções nacionais.
Diz o ditado que 'depressa e bem, há pouco quem'. Saber decidir rápido e bem é uma das grandes virtudes de um árbitro?
O que os treinadores querem são boas decisões. Por vezes é melhor demorar mais um segundo a apitar do que fazê-lo precipitadamente. Os jogadores e treinadores compreendem se aguentarmos o apito... Mas sem dúvida que o timing que um árbitro tem para decidir é muito curto e num só ataque tem que “arbitrar” e julgar muitas situações.
Alguns árbitros dizem que tentam abstrair-se dos insultos que vêm da bancada. É assim tão fácil manter-se afastado disso mesmo?
É mais fácil abstrairmo-nos dos insultos quando temos um pavilhão cheio porque praticamente não conseguimos ouvir. Infelizmente em Portugal isso só acontece nas meias finais e final da Liga ou Proliga. Agora, quando temos um pavilhão com pouca gente e uma ou outra pessoa está constantemente a insultar os árbitros é algo que não é agradével. No entanto, com a concentração que é necessária a um árbitro, conseguimos que os insultos não nos afectem.
Na sua opinião, quais os agentes do basquetebol nacional em maior destaque na actualidade: jogadores, treinadores, dirigentes ou árbitros?
Como árbitro sou suspeito mas penso que a arbitragem deu nos últimos anos um grande salto em qualidade. Basta ver as recentes nomeções do Fernando Rocha, Luis Lopes, Sérgio Silva entre outros e constatamos que os árbitros portugueses estão presentes nos pontos altos do Basquetebol Mundial e Europeu. Mas só com o esforço comum de todas as classes é que podemos ser cada vez mais fortes. A selecção nacional em Espanha teve um desempenho brilhante no último Europeu e é esse o caminho que temos de seguir. Já conseguimos ter alguns jogadores e treinadores fora de Portugal com sucesso mas é preciso mais.
O financiamento do basquetebol nacional tem estado em debate nos últimos tempos. Qual a sua opinião sobre as vozes que opinam a favor da diminuição de custos com a arbitragem?
Este é sempre um tema muito delicado. Penso que o problema do financiamento não se resolve com a diminução dos custos de arbitragem. O grande problema na minha opinião é não termos público nos nossos pavilhões, termos poucas transmissões televisivas e poucas referências para o público em geral. Sem receitas é muito complicado os clubes sobreviverem. As dificuldades económicas não existem só em Portugal. Mas nos outros países o mediatismo que existe à volta do basquetebol é muito maior. Os media fazem uma grande cobertura, existem jogadores de grande qualidade, o público identifica-se com as equipas e o espectáculo “montado” à volta de um jogo de basquetebol leva as familias aos pavilhões. Só assim os patrocinadores aparecem. Os árbitros fazem parte do jogo e investem para se tornarem melhores. E, falando em nome de muitos colegas, temos mantido uma atitude séria e profissional independentemente de recebermos a tempo ou com 4 meses de atraso.
Quando um jovem começa a jogar, rapidamente cria as suas referências observando os grandes atletas. Enquanto árbitro, também tem referências nacionais ou estrangeiras?
Sem dúvida que sim. Mas, e seguindo o ditado, “o que é nacional é bom”, as minhas referências sempre foram a nível nacional, nomeadamente o Fernando Rocha e o Luis Lopes e também os ex-árbitros como o Tozé Coelho por exemplo. Começaram desde cedo a arbitrar lá fora e transmitiram-me o seu conhecimento de forma a eu poder melhorar as minhas prestações.
Recentemente passou a ser árbitro internacional. Depois disto já tem traçados novos objectivos na sua carreira?
Estou a viver um grande momento na minha carreira de árbitro. As coisas foram acontecendo rapidamente e ter chegado a Internacional foi uma sensação muito especial. Este era o meu grande objectivo. A partir de agora o próximo objectivo passa a ser tentar estar presente num ponto alto (Final Four, Campeonatos Europeus da Divisão A, etc.) a nível europeu seja a nível de clubes ou de selecções.




