Entrevista a Pedro Lourenço
Pedro Lourenço é um dos jogadores que fez parte da Selecção Nacional que disputou o Mundial de Juniores organizado em Portugal no ano de 1999. O pequeno base era uma das grandes figuras dessa Geração de atletas, e durante o Campeonato do Mundo foi um dos nomes em maior destaque. Pedro foi um produto das escolas de formação do histórico Guifões SC, e além dos êxitos dentro dos pavilhões, foi também um dos melhores representantes de Portugal em torneios de streetbasket, tendo sido Campeão do Mundo de 3x3 juntamente com José Gomes e com os internacionais Paulo Cunha e João Santos.
Depois dos êxitos no seu trajecto de formação, Pedro Lourenço chegou aos seniores do FC Porto, onde pode evoluir ao lado de um dos melhores bases portugueses de sempre, Rui Santos. Foi ainda um dos representantes portugueses no estrangeiro, competindo em Espanha durante vários anos. É no país vizinho que Pedro Lourenço está radicado, esperando um dia poder regressar a Portugal e ajudar o basquetebol nacional.
Saiba um pouco mais sobre a carreira deste base, um dos poucos lusos a sagrar-se Campeão Mundial a praticar o desporto que adoramos, o basquetebol!
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Competir no Mundial de Juniores foi o momento alto da tua carreira?
Sem dúvida foi um orgulho e um dos momentos mais especiais da minha carreira poder representar o meu país contra as melhores selecções do Mundo. Mas considero cada etapa da minha carreira como momentos importantes porque em todos eles cresci como jogador e como pessoa.
Depois dos jogos na Fase de Grupos contra Croácia e Argentina pensava-se que poderiam conseguir melhor classificação. Aceitas que se diga que ficaram aquém das expectativas?
Sim acho que é justo dizer que ficámos muito aquém das expectativas, mas também é justo dizer que as expectativas fomos nós, o grupo, que as alimentámos com bons jogos contra a Argentina e Croácia. Recordo que depois de terminar o Mundial todos queriam encontrar os responsáveis, mas na realidade, e depois de todos estes anos, acho que a culpa foi de todos relacionados com o Basquetebol Português: sabíamos do enorme repto que tínhamos pela frente mas não soubemos estar à altura. Mas temos também que referir o aspecto positivo que foi a excelente organização e a participação do público.
Alguns dos jogadores dessa Selecção nem fizeram carreira no basket, e muitos dos outros demoraram a afirmar-se no basquetebol profissional e a conseguir minutos de jogo. Talvez as excepções tenham sido o Paulo Cunha, o Jaime Silva, o Francisco Fernandes e tu próprio. Na tua opinião, o que falhou para que essa Geração tivesse tido papel de destaque no escalão sénior?
Ainda hoje penso que o que falhou, já o disse depois de perdermos o jogo contra a Venezuela. Nesse Mundial a única equipa onde os seus jogadores não tinham minutos nas suas ligas principais no escalão sénior éramos nós: só treinar não era suficiente! Isto no final dos jogos notava-se e muito, as equipas por experiência eram melhores, não por qualidade individual ou colectiva. Cada um dos meus companheiros de selecção tinha qualidade suficiente para fazer parte das nossas equipas da Liga, mas ao contrario de outros países, nunca tivemos demasiadas oportunidades. As poucas que tivemos, e alguns como eu trabalharam muito para consegui-las, não eram recompensadas. Por exemplo, quando decidi deixar o FC Porto para jogar minutos no Gaia passaram-se duas coisas: No FC Porto fecharam-me as portas por deixar o clube, e no Gaia depois de uma excelente época em que fui o base titular com números inclusive melhores que bases da Selecção Nacional o clube contrata um base americano para o ano seguinte, ou seja, tanto trabalho e dedicação para nada! Sei que muitos dos meus companheiros de selecção partilham historias idênticas, infelizmente.
Depois do Mundial recebeste convites para jogar basket fora de Portugal?
Tive possibilidades de ir para algumas universidades americanas mas como pensava que era o meu momento de afirmar-me no FC Porto decidi não ir - hoje é uma das coisas que me arrependo não ter feito. Tinha muita confiança em mim e, com todo o respeito do Mundo por um jogador que adorava e que era uma pessoa genial, eu queria e pensava que com muito trabalho podia chegar a ser tão bom ou melhor que o Rui Santos! Esse era o meu objectivo.
Além do sucesso dentro dos pavilhões, também te destacavas nos torneios de Streetbasket 3x3. Consideras que esses eventos são importantes para a divulgação do basquetebol?
São muito importantes, aumentam sem dúvida o número de praticantes mas também de adeptos. Para mim era uma forma de nas férias desportivas continuar a estar ligado ao desporto de forma activa e fazer amigos que é e sempre foi muito importante para mim. E se depois de todos estes valores consegues ser Campeão do Mundo representado o teu país e todos os teus companheiros é uma sensação maravilhosa e inesquecível.
Durante a tua estadia em Espanha tiveste algum sucesso nas LEBs. O teu objectivo era chegar a competições de topo, ou nessa fase já sentias que seria difícil chegar lá cima?
Quando vim para Espanha estava completamente destruído, não tinha equipa em Portugal, o meus agente pouco fazia para que isso mudasse, sentia que tudo o que tinha trabalhado não me tinha servido de nada. Até que um dia me ligou o meu agente para jogar em Espanha numa equipa EBA durante os dois últimos meses da liga, ao início era para uma equipa que ia em segundo e queria subir, mas quando cheguei eram apenas 6 jogadores e estavam nos últimos lugares. Mesmo assim decidi lutar para mostrar o meu valor. Depois de grandes jogos a ajudar a equipa a não descer, um ex-jogador ACB gostou das minhas qualidades e decidiu ser meu agente e mostrar-me o caminho correcto: assinei pelo CB Valls da LEB2, fomos campeões, era o base titular e fui considerado um dos três melhores da liga. Com isto quero dizer que sim, pensei que podia chegar à ACB, mas era um caminho demasiado difícil, muitos jogadores de grande nível, grandes equipas na LEB1 e LEB2, num nível muito superior ao da Liga portuguesa e eu estive lá, competi, tentei, estive perto! Mas o que realmente posso dizer é que aqui aprendi a jogar basquetebol, aprendi que certos valores que em Portugal não eram bem recebidos aqui são transformados em coisas positivas e que o trabalho afinal é mesmo recompensado!
Voltaste a receber convites de equipas portuguesas desde que foste para Espanha?
Sim, tive convites para jogar a Final com uma equipa que queria subir à Liga, mas decidi não aceitar porque vinha de uma lesão e estava a recuperar, além do mais tinha o meu agente a tentar o meu regresso a Portugal porque eu queria terminar os meus estudos universitários. Queria jogar no FC Porto, Benfica, Ovarense ou CAB mas parece que não tive demasiado mérito pelos títulos e pelo bom trabalho desempenhado em Espanha, o que foi uma pena porque muitas vezes falei com o Sérgio Ramos, quando ia a Lleida para o ver jogar, e várias vezes lhe disse que o meu desejo seria voltar a uma grande equipa e à Selecção Nacional.
Ainda acompanhas alguma coisa do basquetebol português?
Sim, acompanho a carreira dos meus amigos jogadores e treinadores sempre que posso e agora mais em especial a Proliga porque está o meu clube do coração: o Guifões Sport Clube.
Mudarias algo nas escolhas que fizeste ao longo da tua carreira?
Temos sempre algumas coisas que mudávamos do nosso passado, precisamente aquelas que em principio foram erradas, mas na realidade isso foi o que me fez crescer na vida e ser o que sou hoje. Sei que fui sempre um atleta com carácter e também posso dizer que sempre fui honesto, muito trabalhador e amigo.
Em Portugal tenta usar-se o exemplo do basket espanhol como modelo de comparação. Vivendo em Espanha, estás mais ciente da realidade desse país. Achas que faz algum sentido comparar os dois casos? É só no basquetebol jogado que os espanhóis vão à frente, ou também no que envolve prospecção, marketing, etc levam clara vantagem?
Na realidade penso que em Portugal até pode ser que se tente usar o basquetebol espanhol como modelo, mas não o aplicam na prática. Há anos que em Portugal se movem sempre as mesmas pessoas, treinadores, directores, jogadores: é um círculo fechado e assim é impossível evoluir. Além do mais acho que nunca tivemos a humildade de vir a Espanha e aprender com um país que está a anos luz a nível desportivo. Espero que com os treinadores espanhóis que estão a trabalhar no nosso país se mude um pouco a mentalidade e a forma de trabalhar as jovens promessas e o basquetebol de formação. Os espanhóis vão à frente em tudo porque também é um país com outros valores e com muitos adeptos. É uma roda normal, os jogadores tem referências de craques na NBA, a ACB é a segunda melhor liga do mundo, as LEBs são ligas muito atractivas e há muitas cidades em que o basquetebol é o desporto principal, os pavilhões estão sempre cheios, é outra realidade. Agora, estou convencido que em Portugal também se pode fazer muito melhor e alcançar um nível bem superior com gente qualificada, com vontade, paciência e com muito trabalho. Espero que com a minha experiência e vontade algum dia possa vir a ajudar nesse sentido.




