Entrevista a Tomás Barroso
Tomás Barroso tem sido um dos jovens em maior destaque na temporada 2010-11 da Liga Portuguesa de Basquetebol. Tendo começado a jogar basquetebol no Clube de Basquete de Albufeira, Tomás emigrou para Espanha onde desenvolveu as suas capacidades durante duas temporadas. No entanto, uma grave lesão atirou-o para fora de campo, interrompendo assim a ascenção do jovem base algarvio. De regresso a Portugal, Tomás Barroso ingressou no SL Benfica, onde chamou a atenção ao seleccionador André Martins que o convocou para o Europeu de Sub20 - neste torneio, o jovem base da Geração de 90 foi uma das figuras da nossa selecção. Desde então, mudou-se para a Figueira da Foz onde tem merecido a confiança do treinador Sérgio Salvador. Ao serviço do Casino Ginásio tem sido uma das figuras da LPB, mostrando que há jovens portugueses com ambição e qualidade para emergir no basquetebol nacional.
Sob o lema do 'trabalho e dedicação' para atingir os seus objectivos, conheça um pouco mais do trajecto que Tomás Barroso teve de percorrer.
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Do Algarve têm saído vários jovens valores: Tomás Barroso, Miguel Queiróz, João Guerreiro, Rafael Wildner, etc. O basket é uma modalidade a crescer no Sul do país?
Na minha geração o Algarve teve um grande crescimento em termos de números de praticantes. Contudo, penso que, com o crescimento de outras modalidades infelizmente o Basket perdeu algum fulgor. Actualmente, para ser sincero, e por falta de tempo disponível, não tenho acompanhado muito o basket algarvio, excepto, em algumas ocasiões esporádicas. Por isso, tenho mais conhecimento directo sobre o imortal DC, clube que representei antes de ir para Espanha e por ser o clube onde o meu irmão mais novo pratica a modalidade. Mas acredito que pode ser uma modalidade a evoluir, já que existem boas condições para a prática da mesma e jovens que estão dispostos a aprendê-la. Cabe assim aos treinadores saberem formar atletas e motivá-los para que estes sigam interessados e cada vez se sintam mais curiosos pelo Basket.
Que balanço fazes da tua passagem pelo Torrelodones de Espanha?
A minha passagem pelo país vizinho foi um dos momentos mais saborosos e gratificantes que tive até hoje. Foram 2 anos em que cresci muito como jogador e como pessoa, já que sair de casa com apenas 16 anos obrigou-me a ser mais independente. Foi com essa mesma idade que comecei a partilhar o pavilhão, com a mentalidade de treinadores sérvios e croatas, exigentíssimos nas respostas pretendidas, com grandes lendas do basquetebol espanhol como o Alfonso Reyes e com grandes promessas, dos quais muitos deles já jogam em clubes como o Real Madrid, Estudiantes e Granada que militam na ACB e competem na Euroliga. Foi um ano duro a nível desportivo, já que competia em 2 campeonatos: sub18 - no qual fomos eliminados pelo Real Madrid nos quartos de final dos playoffs da Região de Madrid e na EBA onde me debati com as equipas “B’s” da ACB e outras com grandes ambições de chegar a divisões superiores. A nível psicológico, foi igualmente muito difícil porque foi necessária uma rápida adaptação aos hábitos e costumes de um país diferente (língua, comida, tradições, estudos) sobretudo vivendo longe da minha família parental.
Porque decidiste regressar a Portugal, e porque escolheste o SL Benfica para continuar a evoluir?
Não era minha intenção voltar a Portugal ao fim de 2 anos. Já me tinha conseguido adaptar e já era conhecido como um dos melhores bases do campeonato de sub18 em Madrid. Inclusivamente estava a frequentar o 1º ano do curso de Educação Física numa universidade daquela zona de Espanha. Mas a infelicidade bateu-me à porta e tive de deixar de jogar praticamente um ano, para poder recuperar de uma rotura e operação ao ligamento cruzado anterior. Tive de tomar decisões bem difíceis. Em reunião familiar ponderamos os prós e os contras e decidimos que era preferível ser intervencionado em Portugal pelo Dr. Zacarias Tomé. Fui operado com êxito a 19 de Fevereiro de 2009. Nunca deixar de ter presente a hipótese de nunca mais conseguir voltar ao que tinha sido. Por isso o meu objectivo naquele momento foi o fazer uma boa recuperação, para assim poder vir a ter uma segunda oportunidade. Já o Benfica como instituição surgiu na parte final da minha recuperação, embora o Goran Nogic estivesse estado sempre presente nela, o que lhe agradeço profundamente. Tinha perfeito conhecimento das qualidades e potencialidades desta instituição e do que ela me podia oferecer. A peça chave nesta escolha foi o treinador Goran Nogic que confiou nas minhas potencialidades e acreditou em mim, mesmo sabendo que não iria estar a 100% no início da época. Penso que qualquer jogador gostaria de representar um clube como é o Benfica e de sentir a sua dimensão, dai que esteja muito feliz por ter conseguido essa oportunidade.
Como é trabalhar com Goran Nogic?
O Goran preocupa-se imenso para que os seus jogadores atinjam a excelência desportiva, não conhecendo para tal, nenhuma outra forma a não ser: “trabalhar, trabalhar e trabalhar” e “exigir, exigir, e exigir”. È uma fórmula vencedora, muito comum na tal “mentalidade sérvia”, com a qual lidei em Espanha. O Torrelodones está recheado de treinadores sérvios, exigentíssimos com o que pretendem, daí a razão de serem uma das melhores escolas de formação de Espanha, já reconhecida internacionalmente. O Goran por onde tem passado tem deixado um rasto desta sua exigência e funcionalidade organizativa, o que muito tem contribuído para o desenvolvimento da modalidade em Portugal e tornado o Benfica uma escola de formação de referência no panorama nacional. Assim com este “pano de fundo” como mote, se não tiveres um grande espirito de sacrificio e uma enorme força de vontade torna-se complicado lidares com este nível altíssimo de exigência. Como curiosidade eu já tinha trabalhado com o Goran antes de ir para o Benfica, no campus que ele organiza todos os anos no verão, o Monte Basket, em Albufeira o que facilitou ainda mais a minha decisão de ir para o Benfica.
Foi difícil escolher a opção Casino Ginásio?
Foi novamente uma decisão muito difícil e com direito a congresso familiar. Havia três hipóteses em “cima da mesa”. A primeira era continuar no Benfica, mas tinha como contrapeso exagerado o facto de certamente ir ter poucas oportunidades de jogar ao mais alto nível na equipa de seniores, sendo necessário rodar novamente na CNB1. A segunda estava relacionada com o meu regresso a Espanha, com a vantagem de ir para um campeonato diferente, tendo como desvantagem o facto de ser um jovem com poucas referências e acabado de sair de uma recuperação demorada. Por fim a terceira hipótese, foi o desafio lançado pelo Sérgio Salvador para integrar o plantel do histórico Ginásio. Com este quadro de referências, optei por aceitar o repto lançado pelo Ginásio, para uma experiência mais intensa na 1ª Liga Portuguesa, tentando afirmar o meu valor. Neste momento não me arrependo nada de ter tomado esta decisão.
Em pouco tempo passaste de um jovem desconhecido da grande maioria, para uma das agradáveis surpresas da Liga, e de repente choviam elogios às tuas capacidades. Como lidaste com esta mudança repentina?
A minha única motivação e orientação foi sempre o trabalho contínuo dos meus “skills” individuais, pois só assim, melhorando, poderia ajudar o grupo de trabalho. Dedico muito do meu tempo livre ao treino individual quer no ginásio em trabalho físico quer no pavilhão treinando o que entendo que precisa de ser melhorado. Procuro aprender inclusivamente com os outros jogadores, principalmente os “americanos” pois têm uma escola diferente da nossa. Acho que todos nós temos “algo” para dar uns aos “outros”. Esta é a única receita que eu conheço: Humildade e Muito Trabalho. Essas duas palavras fazem sempre parte do meu dicionário, quer esteja eu a passar um bom ou mau momento. Se te encontras numa fase boa, tens de trabalhar para mantê-la. Ao invés se estás numa fase má tens de trabalhar o dobro para ultrapassá-la.
Já tens alguma ideia sobre o que fazer no próximo ano: continuar a jogar muitos minutos numa equipa de meio da tabela, ou tentar regressar ao SL Benfica e agarrar um lugar, sabendo que poderás jogar menos tempo?
Aproxima-se o momento na Liga Portuguesa de as equipas começarem a tomar decisões para a próxima época. Em cima da mesa colocam-se todas as possibilidades. Contudo neste momento estou focalizado em tentar chegar com a minha equipa aos playoff´s e isso é o mais importante para mim.
Só no teu último ano Sub20 participaste num Europeu, mas ainda foste a tempo de ser um dos melhores elementos da nossa Selecção. Foi complicada a integração num grupo que trabalhou junto durante vários anos?
Mesmo já conhecendo bem 2 ou 3 colegas de selecção, é sempre complicada a integração num grupo de trabalho que já se encontra junto há diversos anos, Contudo os estágios proporcionaram um melhor conhecimento, relacionamento e integração, acabando por sair do Europeu com grandes amigos, com os quais, gostaria de voltar a partilhar uma equipa um dia.
Contra quem é mais difícil jogar: contra os bases da tua idade no Europeu de Sub20, ou contra os bases da LPB?
Quase todas as equipas na LPB têm bases americanos. Logo o estilo de jogo é muito diferente do que se praticava no Europeu. O base americano é muito mais anotador, obrigando a uma atenção redobrada ao “um contra um”. No Europeu e apesar de cada vez mais aparecem bases com capacidade de marcar com facilidade, preocupavam-se muito mais em organizar o jogo e orientar a equipa.
Das críticas que normalmente são feitas aos jovens portugueses costuma-se apontar a pouca ambição e o pouco trabalho que levam a cabo para chegar ao sucesso. Pensas que tens a ética de trabalho necessária para chegares aos teus objectivos?
Desde muito cedo, por volta dos 12 anos, que o meu exigente "pai" (desportista noutra modalidade) começou a exigir outro tipo de evoluções, mais do que aquelas que eu tinha na minha equipa de formação. Por isso comecei a frequentar campus de aperfeiçoamento na Páscoa e no Verão e a aprender a valorizar o que aprendia quando voltava a casa. Num desses campus tive a oportunidade de me ter sido efectuado um convite pessoal e de a minha família após difícil decisão, ter autorizado a minha deslocação para Espanha. Por isso desde novo sei que não conseguirei alcançar os meus objectivos se não trabalhar e não melhorar um pouco todos os dias. Um jogador não se faz trabalhando nos dias em que se sente bem e em que tudo corre bem, mas sim naqueles em que tem mais dificuldade em superar-se a si mesmo. Por isso tento sempre e luto todos os dias, para continuar a treinar, principalmente sozinho para melhorar e continuar na onda dos bons resultados.

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