Aprender para ensinar
Rui Costa
Aprender a pensar o jogo
Para se poder ensinar, primeiro, é preciso aprender. Foi por este motivo que mais de uma centena de treinadores se deslocaram à Póvoa de Varzim no fim-de-semana de 29 e 30 de Outubro de 2011, assim como também houve muitos outros treinadores a aproveitar os vários Clinics que decorreram ao longo do ano.
Antes de prosseguir com a reflexão sobre o Clinic em questão, trago à baila uma frase de Jud Heathcote – algo que deve estar sempre presente na mente de qualquer treinador – “Nothing has ever been taught until learned; nothing has ever been learned until taught” (“nada alguma vez foi ensinado até ser aprendido; nada alguma vez foi aprendido até ser ensinado”).
No que toca ao clinic em si, das intervenções dos treinadores convidados ficou muito mais do que os X’s e os O’s, ficaram as ideias e uma vontade comum de melhorar o basquetebol. Como? Através da questionação. Sobretudo, através da auto-questionação.
Ser treinador de basquetebol é, antes de mais, aprender a pensar o jogo. As faculdades de que qualquer treinador necessita podem ser categorizadas em duas áreas distintas: a teoria e a prática. Enquanto treinadores, temos de aprender a utilizar o conhecimento que possuímos e construímos ao longo do tempo. Temos de aprender a transmitir esse conhecimento aos jogadores e também aos outros treinadores… e quando os resultados não são os esperados, temos de questionar aquilo que sabemos (ou pensamos que sabemos) e aprender de novo, muitas vezes, aprender algo de novo.

A dada altura, na sua intervenção sobre a defesa HxH campo inteiro, Aíto García Reneses disse o seguinte: “O trabalho dos jogadores é melhorar. É só isso que eles têm de fazer. E melhorando, vão desfrutar”. Permitam-me acrescentar: o trabalho dos treinadores é dar o exemplo, ou seja, o trabalho dos treinadores também é melhorar.
José Tavares mostrou-nos a sua forma de coordenar um clube, mas ensinou-nos sobretudo a pensar a coordenação de qualquer clube (“o coordenador é o treinador dos treinadores”). Fazendo uso da equipa de treinadores ao dispor e do potencial logístico e humano do clube, é preciso saber encontrar as soluções adequadas ao clube em questão.
Ricardo Vasconcelos deu-nos a conhecer a sua forma de pensar o basquetebol feminino nacional enquadrado no contexto do basquetebol europeu. Depois de analisadas quer a nossa selecção, quer as adversárias, procurou as vantagens comparativas no nosso jogo e construiu um modelo de jogo com base nas mesmas – transições rápidas ou “chegar a jogar”.
O seleccionador nacional masculino, Mário Gomes, teve uma intervenção muito importante no sentido de incentivar a pró-actividade dos treinadores, quer individualmente, quer enquanto classe que deve funcionar como o motor do basquetebol. “Ser treinador não é só saber da técnica e saber da táctica.”, foi uma das frases proferido pelo seleccionador, no sentido de alertar para que o papel do treinador vai muito além do que tem de se feito dentro das 4 linhas. Como treinadores, o conformismo não é uma característica aceitável.
É tempo de protegermos aquilo que nos é comum e lutarmos por isso. Temos de lutar pelo jogo de basquetebol.
Quem desempenha um papel activo na educação e formação de atletas (sejam eles minis ou seniores), ou seja, quem quer ensinar atletas, têm de estar sempre em constante aprendizagem. A única forma de isso acontecer é aprendendo a pensar, aprendendo a questionar tudo e todos (começando sempre por si próprio e por aquilo que pensa que sabe).
Já chega de status quo no nosso basquetebol, são precisos treinadores que pensem o jogo, pensem a modalidade e não tenham medo de ir além do que vem sendo feito nas últimas décadas. Tirei duas grandes ideias do último Clinic Internacional da ABP:
- quem quer ensinar basquetebol, tem de aprender a pensar basquetebol;
- nós, treinadores portugueses, temos de (re)pensar o basquetebol português e tomar conta do seu rumo.
Rui Costa
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Rui Costa »
Rui Costa nasceu em Viana do Castelo. Foi aí que começou a sua ligação ao basquetebol, desporto que começou a praticar com 7 anos de idade.
Actualmente reside na Cidade Invicta onde estuda na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, depois de já ter frequentado a FEP. Após passagem pelo Académico FC na última temporada, está agora a defender as cores do CD Póvoa.
Além de jogador, Rui Costa é também treinador de formação, actividade que desempenha desde a temporada de 2008-09, altura em que entrou para a blogosfera do basquetebol, com o seu blog Tripla Ameaça. No BasketPT.com dará continuidade a esse espaço.
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